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Por que unir saúde e educação?

O processo de fragmentação do saber, que teve seu início na Idade Moderna, atingindo seu apogeu nos séculos XIX e XX, separou as áreas, reduziu a visão do ser humano, fazendo com que tanto a medicina quanto a educação não o vejam como um todo.

Se muitas vezes se faz necessário fragmentar o conhecimento para mais aprofundarmos o conhecimento das partes, precisamos depois reconstituí-lo e reintegrá-lo, para o conhecimento do todo. A filosofia positivista que impregna a área da saúde mecaniza o ser humano em um composto de átomos e moléculas. O mesmo positivismo impregna a área da educação, segmentando o conhecimento em disciplinas estanques, sem relação umas com as outras, num ensino mecânico e sem significado e vendo o educando como o receptáculo passivo de conceitos prontos.

O ser, na sua subjetividade, psiquismo, valores morais, sociais e espirituais são ignorados, tanto na escola, quanto no hospital, tanto no ensino fundamental, quanto na universidade. As conexões entre os conhecimentos são deixados de lado. Na saúde, isso resulta em sofrimento tanto para o médico que perde a sua arte, como para o paciente que passa a ser visto como um órgão e não tem espaço para curar-se por inteiro. Na educação, isso resulta tanto em falta de estímulo e mecanização do trabalho do professor, quanto em desinteresse e falta de significado na aprendizagem por parte do aluno. Portanto, a educação tem a missão de resgatar a arte na medicina, ligá-la à sua origem humanística e mesmo espiritual, sem perda das suas conquistas científicas. Mas, para isso, a própria educação precisa também renovar-se de forma interdisciplinar e voltando a olhar o ser humano como um ser integral.

Na árvore do conhecimento, que a Pinus Longæva, antiga e venerável, representa, dois ramos se entrelaçam desde os tempos mais remotos – a saúde e a educação.
Dizia Santo Agostinho que “a ciência que cuida do corpo é chamada medicina. A que cuida da alma, educação. Dado que o cuidado do corpo está intimamente ligado ao da alma, a medicina é um aspecto da educação. Dado, por outro lado, que o cuidado da alma exige certa perícia médica, à educação se chama, com razão, medicina da alma”.

A medicina como educação do corpo e da alma e a educação como processo terapêutico do corpo e da alma – eis a interface que é preciso reencontrar em nossa civilização que tudo fragmentou. Esse link está numa filosofia que encare o ser humano integralmente, como ser biológico, social e espiritual, que, para realizar-se em saúde física e psíquica, precisa desenvolver plenamente suas potencialidades.

Nesse sentido invocamos, sobretudo, os clássicos da educação, como Platão, Comenius, Rousseau, Pestalozzi – todos eles com uma visão integral do ser humano – porque eles oferecem uma possibilidade de diálogo entre as áreas citadas, com a idéia de que o ser humano bem educado é o que se realiza como ser integral (físico, psíquico, espiritual, social, etc.) e, portanto é o homem saudável e feliz.

O projeto de Pansofia (sabedoria do todo) do educador checo Jan Amos Comenius (1592-1670), simbolizado igualmente por uma árvore, representa essa proposta de integração de todas as áreas, de compreensão de todos os aspectos do ser humano.